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  • 27/01/2015

    Ilhados em 2014, caminhoneiros já falam em última viagem ao AC pela BR

    Pajares acredita que os governantes estão escondendo o real motivo da alagação do Rio Madeira. “Faz 30 anos que faço transporte para o Acre, e nunca vi uma alagação como a de 2014. Por que no primeiro ano da usina alagou e agora no segundo também? Qualquer pessoa sabe que isso começou depois das usinas, até porque o rio não voltou ao nível normal desde então”, diz o motorista.

     

    O motorista Romildo Pereira, de 36 anos, trabalha como caminhoneiro há dois anos transportando frios do Paraná (PR) para o município de Brasiléia, distante 220 km de Rio Branco. Ele foi um dos motoristas que arriscou a vida na travessia da BR-364 na alagação de 2014. Pereira disse que ficou parado na estrada por três dias próximo a balsa, por conta do alagamento, pois não tinha para onde seguir.

     

    “Como transporto frios, o motor do caminhão ficou ligado direto e o produto não chegou a estragar, mas muita gente lá teve prejuízo com a carga. Mesmo com minha pouca experiência, em comparação com o ano passado, o nível do rio está bem acima e pelo que ouvi falar na balsa, a preocupação é que a chuva mal começou e a BR já está naquela situação. Há 20 dias eu estive no Acre e não estava assim, me assustei agora quando fui passar na balsa, o rio está lá em cima”, conta.

     

    Pereira acrescenta que em época de chuva esse trecho é um dos que dá mais medo. Ele confessa que o que viveu na alagação do ano passado foi uma das situações mais difíceis nesses dois anos de estrada.

     

    “Nem parecia que eu estava andando de caminhão, parecia mais um barco, era água para todos os lados. Se alagar novamente esse ano, não venho mais para o Acre, já fiquei assustado nessa última viagem. Enquanto tiver na época do inverno vou pedir para trocar o estado de entrega de produtos”, afirma.

     

    Caminhoneiro que viaja com a família teme ficar isolado com esposa e filha na estrada

    Maurício Tavares, de 27 anos, trabalha como motorista há três anos. Ele transporta cebola de Santa Catarina (SC) para o Acre. Em 2014, conta que atravessou a BR-364 três vezes, quando estava tomada pelas águas do Madeira. “Em todas as vezes que passei, senti muito nervosismo e medo, a terceira vez foi a pior de todas, minha esposa viajava comigo e estava grávida, nós ainda não sabíamos, ela ficou muito abalada”, diz.

     

    O motorista fala que conversando com alguns amigos de profissão que também estavam vindo ao Acre nos últimos 15 dias, a maioria disse que não vão se arriscar a passar novamente pela BR-364 na alagação. Ele acrescenta que alguns desses caminhoneiros foram embora do Acre com os caminhões vazios, com receio de não conseguir passar.

     

    “Sempre viajo com minha esposa e agora com nossa filha, de 5 meses, não quero correr o risco de ficar preso na estrada por conta da alagação. Então, vou preferir não vir ao Acre e arriscar passar novamente pela estrada naquelas condições com elas”, conta.

     

    Entenda o caso

     

    Em 2014, o Rio Madeira registrou sua cheia história, atingindo a marca de 19,74 metros. Por isso, o Acre ficou isolado via terrestre, uma vez que a BR-364 é o único acesso para os outros estados do país. Em abril daquele ano, o governo acreano chegou a decretar calamidade pública. Na época, os acreanos enfrentaram o racionamento de diversos alimentos nas prateleiras, além de gás de cozinha e combustíveis, o que gerou grandes filas de veículos nos postos.

     

    No dia 8 de janeiro deste ano, o governo do estado se reuniu com representantes do Ministério da Integração Nacional para debater a criação de um plano de contingência para uma possível nova enchente.

     

    Na ocasião, o meteorologista do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), Luis Alves, disse que a expectativa é que não ocorra este ano uma cheia na mesma proporção da anterior. “Aguardamos uma nova cheia, mas não com a mesma magnitude do ano passado”, falou.